sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Maravilha!

POESIA E CRÍTICA, OU OS DONOS DO REAL
01/09/2007
Alexei Bueno*

No Segundo Caderno do dia 28 de agosto, há um artigo de Arnaldo Jabor sobre João Cabral de Melo Neto. Após encarecer a ligação do poeta pernambucano com o "real", cita um trecho de entrevista feita por ele com o mesmo, no qual João Cabral comenta o mal enorme que Fernando Pessoa teria feito à poesia, justamente por causa de sua poesia "esparramada e caudalosa", que deu origem a vários poetastros que se julgavam com inspiração metafísica, o que muito aliviou Jabor, que não gostava de Fernando Pessoa.

Gostaria de saber onde estão o "caudaloso" e o "esparramado" em Fernando Pessoa. Nos poemas de uma capacidade de síntese única em poesia portuguesa, desde Camões, que compõem "Mensagem"? Nas odes de Ricardo Reis, de uma concisão pétrea e perfeita? Nos poemas assinados com seu próprio nome, que criam um novo patamar de agudeza de visão na nossa língua? Num poema como o que vai abaixo?

"Pobre velha música!

Não sei por que agrado,

Enche-se de lágrimas

Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te,

Não sei se te ouvi

Nessa minha infância

Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva

Quero aquele outrora!

E eu era feliz? Não sei:

Fui-o outrora agora."

Onde, nas mínimas cinco sílabas do último verso, se reproduz como nunca antes entre nós um exato fenômeno psíquico-emocional. Provavelmente, o esparramado deve estar nas grandes odes de Álvaro de Campos, na "Ode marítima", na "Ode triunfal", ou na "Ode marcial", os maiores poemas de todo o Futurismo europeu, ou na "Tabacaria", esse retrato sem igual da alma de um homem de seu século? Ou na tábula rasa única de Alberto Caeiro? Arnaldo Jabor tem todo o direito de não gostar de Fernando Pessoa, só poderia nos explicar de qual deles. Mas o que é "caudaloso", o que é "esparramado"? "Os sertões"? O "Grande sertão: veredas"? O "Dom Quixote"? A "Ode marítima"? "A tabacaria"? E então? Pessoa é dos poetas mais sintéticos da língua, e sintético em cinco versos ou em oitocentos, isso não tem nada a ver com extensão, se formos julgar arte por tamanho, aí sim vamos acabar muito mal. Mas o que existe de fato nessa afirmação de João Cabral e no artigo do cineasta é o típico ódio brasileiro à subjetividade. Boa parte dos intelectuais brasileiros nunca saiu de Zola, e confunde o real com o material, o que não é de espantar depois da Escola do Recife, do Naturalismo, do Positivismo, do Parnasianismo "escultórico", da poesia "concreta", da "pedra" cabralina, etc. Se há subjetividade, então não é real.

Se João Cabral escreve um poema sobre um ovo, ele é real; se Fagundes Varela escreve um poema sobre a morte de um filho, ele é "metafísico". Portanto, cabe a pergunta: a dor pela morte de um filho é menos "real" do que um ovo? João Cabral de Melo Neto nunca me pareceu entender o significado da palavra "metafísica", já que sempre a utilizou como um pejorativo, da maneira mais primária, como aliás sempre foram todos os comentários críticos que fez em sua vida. O fato de ser um grande artista, infelizmente, nunca garantiu a ninguém a capacidade de ser nem um crítico minimamente sofrível, embora existam os que somam tudo, como um Baudelaire ou um Schumann.

O cérebro de um homem é uma coisa física, miolos moles e pálidos até bem parecidos com alguns outros que comemos com manteiga. Aí, portanto, está o real. A mente, essa é metafísica, de fato o é, logo não serve para a arte ou a poesia. Quando Fernando Pessoa-Álvaro de Campos escreve um dos maiores poemas da língua, "Aniversário", tratando da angústia de quem assiste à desaparição, no tempo, de todos os seres e ambiências que compunham a rede afetiva de sua infância - coisa que acontece com todos os humanos do planeta, a não ser os que morrem na puerícia - então é "metafísico", "esparramado", "caudaloso", apesar da implacável perfeição e exatidão de um poema como esse, do mesmo nível, aliás, de quase toda a sua imensa obra. Em suma, há que escrever sobre "coisas", e como a subjetividade não é coisa, é metafísica, esparramada e caudalosa, não serve para a poesia. Acontece que a subjetividade é tão real quanto qualquer objeto físico, aliás mais real, pois sem ela nem o perceberíamos como tal. Sinto até vergonha em afirmar objetividades escandalosas como essas em pleno século XXI.

A mim, especialmente, interessa-me muito mais a minha angústia pela morte do que um ovo ou uma pedra. Direito meu, como o dos outros preferirem a pedra ou o ovo. Nunca compreendi o porquê, no entanto, da insistência de João Cabral, sobretudo a partir da decadência de sua poesia depois de "Museu de tudo", em atacar e ironizar a subjetividade na poesia, como atacava também a Borges ou a Drummond. Há mais coisa entre o céu e a terra do que um canavial, e quem reduz o real ao físico parece demonstrar, bem no fundo, um obscuro anelo de se internar num zoológico.

ALEXEI BUENO é poeta
(publicado no O Globo de 01/09/2007, 2º Caderno)

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