quarta-feira, 19 de setembro de 2007

O cinema na cabeça

Em A linguagem secreta do cinema (1995, Civ. Brasileira), Jean-Claude Carrière conta que, nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, os colonizadores franceses, com o pretexto da diversão, organizavam sessões de filmes na África: exibiam a grande novidade do Ocidente industrializado – o cinema – uma mistura de teatro, pintura, fotografia e outros progressos técnicos. Na verdade, ao exaltar as qualidades de todo aquele aparato, pretendiam demonstrar a superioridade da civilização branca sobre as populações africanas subjugadas.
“Estendia-se um lençol entre duas estacas, preparava-se cuidadosamente o misterioso aparelho e, de repente, na noite seca da selva africana, surgiam figuras em movimento.”
Os convidados eram importantes personalidades africanas, acompanhadas de seus servidores, dentre os quais alguns líderes religiosos – e uma recusa em comparecer poderia ser considerado desfeita. Acontece que alguns, sendo muçulmanos, seguiam antiga e severa tradição que os proibia de representar a face e a forma humanas, criações divinas.
“Diplomaticamente aceitavam os convites oficiais, apertavam as mãos dos franceses e ocupavam os lugares que lhes eram reservados. Quando as luzes se apagavam e os primeiros feixes luminosos bruxuleavam do curioso aparelho, fechavam os olhos e os conservavam fechados durante todo o espetáculo. Estavam lá e não estavam. Faziam-se presentes mas nada viam.”
Carrière tenta imaginar que filme estaria passando naquelas cabeças africanas, uma vez que dificilmente alguém, mesmo de olhos fechados, consegue se livrar das imagens.

* * *
Lembrei-me dessa história no mês passado, quando dei com a morte simultânea dos dois cineastas que fizeram, não apenas a cabeça da minha geração, mas o cinema passar literalmente pelas nossas cabeças: Bergman e Antonioni.
Porque não se assistia aos filmes de um e outro sem que algum tipo de inquietação nos deixasse imbuídos de uma desafiante vontade de discutir, criticar ou tecer ilações – quase sempre sem nenhum fundamento, é verdade – mas sempre se saía do cinema com o filme na cabeça.
E ficava-se com ele assim por vários dias; às vezes, voltava-se ao cinema no dia seguinte, “para rever a cena que não ficou bem entendida”; e mais encontros e telefonemas intermináveis ainda discutiam o filme semanas depois.
Em Morangos silvestres, há uma seqüência em que o protagonista dá carona a três jovens: uma moça e dois rapazes. Os dois discutem sem parar, com pontos de vista diametralmente opostos – um idealista, outro materialista – e a moça, alegremente, admite estar apaixonada pelos dois, não conseguindo decidir-se por um ou outro: “Concordo sempre com o último que fala”, diz a mocinha. Diversas vezes me vi na mesma situação, em mesas de bar onde a questão da vida e da morte, da solidão e desamparo da sociedade moderna ou da alienação da burguesia eram objeto de tantas tertúlias boêmias, que ficava realmente difícil decidir quem tinha razão – se é que isso tinha importância. Pois não tinha; como no filme de Bergman, concordava-se sempre com o último a falar, quase sempre alto da noite.
Os temas eram pesados, mas o pessoal, não; os ícones, sérios – Sartre, Beauvoir, Greco – mas aqui tinha-se Leila Diniz e a Banda de Ipanema; Vinicius, Tom e Glauber. Era da praia para o cinema, do cinema para o bar ou festa– e tome discussão.
Hoje, revendo outros filmes de Bergman (porque agora vejo outros filmes, embora sejam os mesmos de 40 anos atrás), observo que o fotograma expõe a máscara do ator com tal expressividade que o espectador vê o que ele está vendo, pela expressão do rosto dele; não, o que a câmera deveria mostrar. Ou seja, vê-se com o olho do personagem, olha-se uma coisa e vê-se outra – que não foi filmada.
Volto a Carrière:
“Como qualquer forma de arte, o cinema faz um jogo manhoso com o grande mestre. Marca as cartas, blefa. A pausa que ele propõe é ilusória, como todas as pausas, mas pode ser refrescante. Também pode ser animadora e estimulante, pois nos força a acordar (...). E citando Heinrich Böll, para quem “a realidade exige nossa atenção ativa”, diz que o mesmo pode ser atribuído à ficção:
“Atenção ativa – na melhor de todas as hipóteses. Caso contrário, devemos nos satisfazer com o tédio e com um cotidiano sem poesia.”
Tédio e cotidiano sem poesia – não era esse o universo dos personagens de Antonioni?
Em Blow up , um fotógrafo obcecado com a idéia de desvendar um crime a partir de indícios e muita imaginação acaba por assistir a uma partida de tênis sem bola, jogada por um grupo de funâmbulos. Em dado momento, a “bola” cai a seu lado e ele entra no jogo da ficção: devolve a bola.
Era essa atenção ativa que nos acordava e nos fazia participar dos filmes de Bergman, Antonioni, Fellini, Buñuel: entrávamos no jogo, pegávamos a bola e íamos com ela até onde podiam chegar nossa imaginação e fantasia.

Maria Helena Ferrari

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