Devo esclarecer o que eu entendi por 'atenção ativa', que talvez tenha ficado meio fora de contexto: Carrière vinha falando da inexorabilidade do tempo e da não distinção entre realidade e ficção, no que se refere à memória; de como a verdade histórica é relativa e do papel do cinema nisso tudo; de como uma imagem envelhece ou não, e de como o imaginário é muito mais forte do que a realidade. Pega emprestado a expressão 'atenção ativa', que Böll usa no sentido de não sermos conformistas diante da realidade, isto é, não aceitarmos passivamente tudo, sem questionamento, e transfere isso para a ficção.
De modo que a idéia que me passou foi de que não se deve aceitar o fácil, o digerível, previsível, o lugar-comum, o clichê, o que nos desce pela güela abaixo, tanto nos noticiários quanto nas ficções novelescas.
A ficção – ele está se referindo especificamente ao cinema, mas serve pra tudo – deve ser animadora, estimulante "pois nos força a acordar". O contrário disso é o entorpecimento que vemos hoje em dia, nesses filmes clipados e ensurdecedores, em que os efeitos especiais redundantes servem a uma espetacularização completamente alienante. O cotidiano sem poesia, a que se refere Carrière. Por isso o pessoal da Dinamarca resolveu abolir radicalmente qualquer recurso, para deixar os filmes "no osso". Mas essa é uma outra questão – ou não.
Volto ao Antonioni: minha leitura (há outras, é claro) é de que quando o fotógrafo de Blow up entra no jogo, opta pelo imaginário, ao invés de buscar o referencial, como ele vinha fazendo o tempo todo, tentando desvendar um crime que talvez estivesse mesmo em sua cabeça. A fusão real/imaginário – que só é dada pela arte – aparece no final, na forma daquele jogo de tênis, como uma solução maravilhosa (vc. leu o conto do Cortázar, no qual se inspira o filme?).
Um dos últimos filmes de Antonioni, que ele dirigiu c/ Win Wenders porque já estava doente – Além das nuvens – trata dessa questão: mistura ficção e realidade na cabeça de um diretor em busca de uma história.
O método é exatamente o mesmo de que Carrière fala no livro, quando trabalhava c/ Milos Forman ou Buñuel: "sentir" a realidade, para depois reconstruí-la em forma de ficção. Mas Buñuel é um capítulo à parte.
E, para não deixar de fora dessa discussão o Bergman, que tal a solução de Fanny e Alexander? Ali, a história se resolve na força do pensamento, que produz o incêndio final, e aponta para um futuro feminino, – as mulheres e seu imaginário assumem a companhia de teatro – e uma nova história será contada.
Finalmente, acho, sim, que a geração Paissandu, ao discutir os filmes, bem como to-dos os assuntos, rompeu c/ uma série de convenções e dogmas e pagou um preço bem alto por isso. As limitações e racionalizações eram resultado de circunstâncias históricas e educacionais/culturais – e não poderia ser diferente, ou não seria essa a história.
A verdade é que esses cineastas, mais que ver, nos ensinaram a enxergar: os filmes, as obras, a vida.
Maria Helena Ferrari
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
O cinema na cabeça
Em A linguagem secreta do cinema (1995, Civ. Brasileira), Jean-Claude Carrière conta que, nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, os colonizadores franceses, com o pretexto da diversão, organizavam sessões de filmes na África: exibiam a grande novidade do Ocidente industrializado – o cinema – uma mistura de teatro, pintura, fotografia e outros progressos técnicos. Na verdade, ao exaltar as qualidades de todo aquele aparato, pretendiam demonstrar a superioridade da civilização branca sobre as populações africanas subjugadas.
“Estendia-se um lençol entre duas estacas, preparava-se cuidadosamente o misterioso aparelho e, de repente, na noite seca da selva africana, surgiam figuras em movimento.”
Os convidados eram importantes personalidades africanas, acompanhadas de seus servidores, dentre os quais alguns líderes religiosos – e uma recusa em comparecer poderia ser considerado desfeita. Acontece que alguns, sendo muçulmanos, seguiam antiga e severa tradição que os proibia de representar a face e a forma humanas, criações divinas.
“Diplomaticamente aceitavam os convites oficiais, apertavam as mãos dos franceses e ocupavam os lugares que lhes eram reservados. Quando as luzes se apagavam e os primeiros feixes luminosos bruxuleavam do curioso aparelho, fechavam os olhos e os conservavam fechados durante todo o espetáculo. Estavam lá e não estavam. Faziam-se presentes mas nada viam.”
Carrière tenta imaginar que filme estaria passando naquelas cabeças africanas, uma vez que dificilmente alguém, mesmo de olhos fechados, consegue se livrar das imagens.
* * *
Lembrei-me dessa história no mês passado, quando dei com a morte simultânea dos dois cineastas que fizeram, não apenas a cabeça da minha geração, mas o cinema passar literalmente pelas nossas cabeças: Bergman e Antonioni.
Porque não se assistia aos filmes de um e outro sem que algum tipo de inquietação nos deixasse imbuídos de uma desafiante vontade de discutir, criticar ou tecer ilações – quase sempre sem nenhum fundamento, é verdade – mas sempre se saía do cinema com o filme na cabeça.
E ficava-se com ele assim por vários dias; às vezes, voltava-se ao cinema no dia seguinte, “para rever a cena que não ficou bem entendida”; e mais encontros e telefonemas intermináveis ainda discutiam o filme semanas depois.
Em Morangos silvestres, há uma seqüência em que o protagonista dá carona a três jovens: uma moça e dois rapazes. Os dois discutem sem parar, com pontos de vista diametralmente opostos – um idealista, outro materialista – e a moça, alegremente, admite estar apaixonada pelos dois, não conseguindo decidir-se por um ou outro: “Concordo sempre com o último que fala”, diz a mocinha. Diversas vezes me vi na mesma situação, em mesas de bar onde a questão da vida e da morte, da solidão e desamparo da sociedade moderna ou da alienação da burguesia eram objeto de tantas tertúlias boêmias, que ficava realmente difícil decidir quem tinha razão – se é que isso tinha importância. Pois não tinha; como no filme de Bergman, concordava-se sempre com o último a falar, quase sempre alto da noite.
Os temas eram pesados, mas o pessoal, não; os ícones, sérios – Sartre, Beauvoir, Greco – mas aqui tinha-se Leila Diniz e a Banda de Ipanema; Vinicius, Tom e Glauber. Era da praia para o cinema, do cinema para o bar ou festa– e tome discussão.
Hoje, revendo outros filmes de Bergman (porque agora vejo outros filmes, embora sejam os mesmos de 40 anos atrás), observo que o fotograma expõe a máscara do ator com tal expressividade que o espectador vê o que ele está vendo, pela expressão do rosto dele; não, o que a câmera deveria mostrar. Ou seja, vê-se com o olho do personagem, olha-se uma coisa e vê-se outra – que não foi filmada.
Volto a Carrière:
“Como qualquer forma de arte, o cinema faz um jogo manhoso com o grande mestre. Marca as cartas, blefa. A pausa que ele propõe é ilusória, como todas as pausas, mas pode ser refrescante. Também pode ser animadora e estimulante, pois nos força a acordar (...). E citando Heinrich Böll, para quem “a realidade exige nossa atenção ativa”, diz que o mesmo pode ser atribuído à ficção:
“Atenção ativa – na melhor de todas as hipóteses. Caso contrário, devemos nos satisfazer com o tédio e com um cotidiano sem poesia.”
Tédio e cotidiano sem poesia – não era esse o universo dos personagens de Antonioni?
Em Blow up , um fotógrafo obcecado com a idéia de desvendar um crime a partir de indícios e muita imaginação acaba por assistir a uma partida de tênis sem bola, jogada por um grupo de funâmbulos. Em dado momento, a “bola” cai a seu lado e ele entra no jogo da ficção: devolve a bola.
Era essa atenção ativa que nos acordava e nos fazia participar dos filmes de Bergman, Antonioni, Fellini, Buñuel: entrávamos no jogo, pegávamos a bola e íamos com ela até onde podiam chegar nossa imaginação e fantasia.
Maria Helena Ferrari
“Estendia-se um lençol entre duas estacas, preparava-se cuidadosamente o misterioso aparelho e, de repente, na noite seca da selva africana, surgiam figuras em movimento.”
Os convidados eram importantes personalidades africanas, acompanhadas de seus servidores, dentre os quais alguns líderes religiosos – e uma recusa em comparecer poderia ser considerado desfeita. Acontece que alguns, sendo muçulmanos, seguiam antiga e severa tradição que os proibia de representar a face e a forma humanas, criações divinas.
“Diplomaticamente aceitavam os convites oficiais, apertavam as mãos dos franceses e ocupavam os lugares que lhes eram reservados. Quando as luzes se apagavam e os primeiros feixes luminosos bruxuleavam do curioso aparelho, fechavam os olhos e os conservavam fechados durante todo o espetáculo. Estavam lá e não estavam. Faziam-se presentes mas nada viam.”
Carrière tenta imaginar que filme estaria passando naquelas cabeças africanas, uma vez que dificilmente alguém, mesmo de olhos fechados, consegue se livrar das imagens.
* * *
Lembrei-me dessa história no mês passado, quando dei com a morte simultânea dos dois cineastas que fizeram, não apenas a cabeça da minha geração, mas o cinema passar literalmente pelas nossas cabeças: Bergman e Antonioni.
Porque não se assistia aos filmes de um e outro sem que algum tipo de inquietação nos deixasse imbuídos de uma desafiante vontade de discutir, criticar ou tecer ilações – quase sempre sem nenhum fundamento, é verdade – mas sempre se saía do cinema com o filme na cabeça.
E ficava-se com ele assim por vários dias; às vezes, voltava-se ao cinema no dia seguinte, “para rever a cena que não ficou bem entendida”; e mais encontros e telefonemas intermináveis ainda discutiam o filme semanas depois.
Em Morangos silvestres, há uma seqüência em que o protagonista dá carona a três jovens: uma moça e dois rapazes. Os dois discutem sem parar, com pontos de vista diametralmente opostos – um idealista, outro materialista – e a moça, alegremente, admite estar apaixonada pelos dois, não conseguindo decidir-se por um ou outro: “Concordo sempre com o último que fala”, diz a mocinha. Diversas vezes me vi na mesma situação, em mesas de bar onde a questão da vida e da morte, da solidão e desamparo da sociedade moderna ou da alienação da burguesia eram objeto de tantas tertúlias boêmias, que ficava realmente difícil decidir quem tinha razão – se é que isso tinha importância. Pois não tinha; como no filme de Bergman, concordava-se sempre com o último a falar, quase sempre alto da noite.
Os temas eram pesados, mas o pessoal, não; os ícones, sérios – Sartre, Beauvoir, Greco – mas aqui tinha-se Leila Diniz e a Banda de Ipanema; Vinicius, Tom e Glauber. Era da praia para o cinema, do cinema para o bar ou festa– e tome discussão.
Hoje, revendo outros filmes de Bergman (porque agora vejo outros filmes, embora sejam os mesmos de 40 anos atrás), observo que o fotograma expõe a máscara do ator com tal expressividade que o espectador vê o que ele está vendo, pela expressão do rosto dele; não, o que a câmera deveria mostrar. Ou seja, vê-se com o olho do personagem, olha-se uma coisa e vê-se outra – que não foi filmada.
Volto a Carrière:
“Como qualquer forma de arte, o cinema faz um jogo manhoso com o grande mestre. Marca as cartas, blefa. A pausa que ele propõe é ilusória, como todas as pausas, mas pode ser refrescante. Também pode ser animadora e estimulante, pois nos força a acordar (...). E citando Heinrich Böll, para quem “a realidade exige nossa atenção ativa”, diz que o mesmo pode ser atribuído à ficção:
“Atenção ativa – na melhor de todas as hipóteses. Caso contrário, devemos nos satisfazer com o tédio e com um cotidiano sem poesia.”
Tédio e cotidiano sem poesia – não era esse o universo dos personagens de Antonioni?
Em Blow up , um fotógrafo obcecado com a idéia de desvendar um crime a partir de indícios e muita imaginação acaba por assistir a uma partida de tênis sem bola, jogada por um grupo de funâmbulos. Em dado momento, a “bola” cai a seu lado e ele entra no jogo da ficção: devolve a bola.
Era essa atenção ativa que nos acordava e nos fazia participar dos filmes de Bergman, Antonioni, Fellini, Buñuel: entrávamos no jogo, pegávamos a bola e íamos com ela até onde podiam chegar nossa imaginação e fantasia.
Maria Helena Ferrari
terça-feira, 18 de setembro de 2007
Ainda o Brasileirinho
Algumas pessoas reclamaram ausências de nomes significativos da história do choro em Brasileirinho. É preciso lembrar que o filme pode ser visto quase como uma reportagem a partir da comemoração do Dia Nacional do Choro, que culminou com um concerto maravilhoso no Teatro Municipal de Niterói. Esse ponto de partida e alguns outros fatores (quem já fez algum tipo de produção sabe que são muitos) devem ter contribuído para as omissões de que o filme vem sendo acusado.
A meu ver o problema está numa inoportuna narração que aqui e ali irrompe sem muita finalidade, a não ser justamente tentar passar um certo cunho didático inadequado e desnecessário. Isso talvez tenha deixado no ar a impressão de que, em vez de um simples recorte, o filme pretendia ser um estudo definitivo e biográfico sobre o choro, quando é possível que não tenha passado de um registro da maior dignidade sobre a música talvez mais representativa do Brasil.
Só queria que mais filmes assim "falhos e omissos" fossem feitos todos os dias, para neutralizar um pouco o festival de baixarias (sem trocadilho) que assola nossa mídia.
Aliás, foi preciso vir da Finlândia um sujeito com sensibilidade para perceber e mostrar para nós o que temos de melhor; gravar, por exemplo, registros inacreditáveis como aquela travessia de barca para Niterói, com o melhor time de músicos do país a tocar de graça para afortunados e incrédulos ouvintes.
Ou outras cenas memoráveis que o filme nos traz para mostrar aos brasileiros o que é a cultura brasileira.
A meu ver o problema está numa inoportuna narração que aqui e ali irrompe sem muita finalidade, a não ser justamente tentar passar um certo cunho didático inadequado e desnecessário. Isso talvez tenha deixado no ar a impressão de que, em vez de um simples recorte, o filme pretendia ser um estudo definitivo e biográfico sobre o choro, quando é possível que não tenha passado de um registro da maior dignidade sobre a música talvez mais representativa do Brasil.
Só queria que mais filmes assim "falhos e omissos" fossem feitos todos os dias, para neutralizar um pouco o festival de baixarias (sem trocadilho) que assola nossa mídia.
Aliás, foi preciso vir da Finlândia um sujeito com sensibilidade para perceber e mostrar para nós o que temos de melhor; gravar, por exemplo, registros inacreditáveis como aquela travessia de barca para Niterói, com o melhor time de músicos do país a tocar de graça para afortunados e incrédulos ouvintes.
Ou outras cenas memoráveis que o filme nos traz para mostrar aos brasileiros o que é a cultura brasileira.
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
Outra maravilha para o baú!
| NOBREZA POPULAR | ||
| 02/09/2007 | ||
| ||
Maravilha!
| POESIA E CRÍTICA, OU OS DONOS DO REAL | ||
| 01/09/2007 | ||
| ||
terça-feira, 28 de agosto de 2007
O dia em que silenciei aqueles malditos
Você não vai acreditar, mas eu posso provar: pitbuls gostam de John Coltrane. Mais precisamente do disco Ballads, da Impulse. E não só de Coltrane, mas de alguns outros músicos excepcionais.
Como descobri isso?
Foi assim: ontem, como todas as noites, as duas feras que meu vizinho cultiva em casa treinavam sua ferocidade (êpa! Isso dá samba: os pitbuls, grrr/grrr, vinham latindo ferozmente, grrr/grrr). Bem, estavam eles no seu exercício diário de agressões, rugidos, gritos, zurros, bramidos e outros desagradabilíssimos sons caninos que roubam minha paz diuturnamente, quando algum anjo torto, bluzeiro e jazzístico – talvez prematuramente morto num ataque de cães ferozes quando, bêbado e inebriado de blues notes, deixava uma jam session e seguia distraído pelas ruas escuras de um bairro boêmio – me soprou aos ouvidos a idéia que logo pus em prática: aparelho de som na janela voltado para o pátio dos horrores tocando John Coltrane.
Foi tiro e queda. Emudeceram na hora.
Fiquei pasma! Ria sozinha, experimentando um misto de alegria e orgulho de mim mesma, semelhante talvez ao de Arquimedes em seu famoso banho de banheira. Eureca! Como não pensei nisso antes?
Telefonei para o amigo que há anos não via e que um dia me dera o benfazejo CD: obrigada, amigo. Você só me fez bem. E que bem! Ele achou só um pouco de graça, nem lembrava mais do presente e, ainda por ciima, pelo que entendi, estava com uma mocinha por baixo. Desculpe, vai. Eu precisava desabafar minha alegria.
Dentro do silêncio canino, a noite de Santa Teresa ouvia o sax divino de Coltrane tocando as mais lindas canções.
Não deu outra: dormi e sonhei! No sonho via um flautista de Hamelin negro que em vez de fauta tocava sax seguindo à frente de uma multidão de pitbuls pelas ruas do centro da cidade. De repente, estavam todos – flautista e cães – atravessando a ponte Rio-Niterói até o vão central, onde os cães começavam a se jogar no mar, numa cena belíssima: o suicídio coletivo dos pitbuls nunca me sairá da memória.
Estava eu nesse ponto quando o CD acabou. As feras, voltando a sua burríssima natureza, recomeçaram sua rotina e agressões mútuas, intercaladas com ganidos, mordidas e ameaças.
Tentei o primeiro CD que vi na estante: Diane Krall (Live in Paris, Universal Music). Não dei certo. Diane seduziu o Olympia com essas canções, mas não os pitbuls.
Foi aí que tive a segunda eureca da noite: eles rejeitam a voz humana. Foram treinados para isso. Pode ser que mais tarde se acostumem, e talvez eu tenha que começar por João Gilberto, não sei. Não quis arriscar. Coloquei o álbum de piano e flauta do Tomás Improta e da Andrea Ernest Dias. Sucesso.
E para terminar a audição, um pianista chamado Jean -Yves Thibaudet (The Chopin I Love), que os emudeceu de vez.
Do jeito que essa turma é crítica, já posso imaginar o que vem por aí. Vão dizer que eu estou dando um golpe de marketing, com um produto absolutamente insólito: concerto para cães. Mas não vou me abalar com isso. Sabem por quê? Hoje, pela manhã, eles continuavam em silêncio.
Meninos, eu vi!
Como descobri isso?
Foi assim: ontem, como todas as noites, as duas feras que meu vizinho cultiva em casa treinavam sua ferocidade (êpa! Isso dá samba: os pitbuls, grrr/grrr, vinham latindo ferozmente, grrr/grrr). Bem, estavam eles no seu exercício diário de agressões, rugidos, gritos, zurros, bramidos e outros desagradabilíssimos sons caninos que roubam minha paz diuturnamente, quando algum anjo torto, bluzeiro e jazzístico – talvez prematuramente morto num ataque de cães ferozes quando, bêbado e inebriado de blues notes, deixava uma jam session e seguia distraído pelas ruas escuras de um bairro boêmio – me soprou aos ouvidos a idéia que logo pus em prática: aparelho de som na janela voltado para o pátio dos horrores tocando John Coltrane.
Foi tiro e queda. Emudeceram na hora.
Fiquei pasma! Ria sozinha, experimentando um misto de alegria e orgulho de mim mesma, semelhante talvez ao de Arquimedes em seu famoso banho de banheira. Eureca! Como não pensei nisso antes?
Telefonei para o amigo que há anos não via e que um dia me dera o benfazejo CD: obrigada, amigo. Você só me fez bem. E que bem! Ele achou só um pouco de graça, nem lembrava mais do presente e, ainda por ciima, pelo que entendi, estava com uma mocinha por baixo. Desculpe, vai. Eu precisava desabafar minha alegria.
Dentro do silêncio canino, a noite de Santa Teresa ouvia o sax divino de Coltrane tocando as mais lindas canções.
Não deu outra: dormi e sonhei! No sonho via um flautista de Hamelin negro que em vez de fauta tocava sax seguindo à frente de uma multidão de pitbuls pelas ruas do centro da cidade. De repente, estavam todos – flautista e cães – atravessando a ponte Rio-Niterói até o vão central, onde os cães começavam a se jogar no mar, numa cena belíssima: o suicídio coletivo dos pitbuls nunca me sairá da memória.
Estava eu nesse ponto quando o CD acabou. As feras, voltando a sua burríssima natureza, recomeçaram sua rotina e agressões mútuas, intercaladas com ganidos, mordidas e ameaças.
Tentei o primeiro CD que vi na estante: Diane Krall (Live in Paris, Universal Music). Não dei certo. Diane seduziu o Olympia com essas canções, mas não os pitbuls.
Foi aí que tive a segunda eureca da noite: eles rejeitam a voz humana. Foram treinados para isso. Pode ser que mais tarde se acostumem, e talvez eu tenha que começar por João Gilberto, não sei. Não quis arriscar. Coloquei o álbum de piano e flauta do Tomás Improta e da Andrea Ernest Dias. Sucesso.
E para terminar a audição, um pianista chamado Jean -Yves Thibaudet (The Chopin I Love), que os emudeceu de vez.
Do jeito que essa turma é crítica, já posso imaginar o que vem por aí. Vão dizer que eu estou dando um golpe de marketing, com um produto absolutamente insólito: concerto para cães. Mas não vou me abalar com isso. Sabem por quê? Hoje, pela manhã, eles continuavam em silêncio.
Meninos, eu vi!
sábado, 28 de julho de 2007
Amigos
O amigo, quando é legítimo, parece que compra um pedaço da gente. Ficamos sendo propriedade, com "plaquinha de vendido" fincada no chão!
Para que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.
Milan Kundera escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.Verdade verdadeira.
Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.
Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.
Um amigo não recomenda apenas um CD. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.
Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele e topa conhecer o teu.
Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o réveillon.
Um amigo anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.
Um amigo não segura a barra, apenas segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.
Como disse Machado de Assis: "Ter amigos é a melhor cumplicidade!
COMO É BOM TER AMIGOS COMO VOCÊS!!!
Para que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.
Milan Kundera escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.Verdade verdadeira.
Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.
Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.
Um amigo não recomenda apenas um CD. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.
Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele e topa conhecer o teu.
Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o réveillon.
Um amigo anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.
Um amigo não segura a barra, apenas segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.
Como disse Machado de Assis: "Ter amigos é a melhor cumplicidade!
COMO É BOM TER AMIGOS COMO VOCÊS!!!
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